Termas com História[s]


Bastaram cinco minutos de conversa com Damiana Mota, no átrio das Termas de S. Jorge, para nos curvarmos perante a sua resiliência. Sim, a D. Damiana é um exemplo de superação e uma genuína lição de humildade para todos os que assumem a saúde e o bem-estar como garantidos, desvalorizando a dádiva gigantesca que representam.

É difícil – na verdade, é impossível – imaginar o dia a dia de alguém que convive com a dor 24 sobre 24 horas, sem tréguas. É assim o quotidiano de Damiana Mota, de 69 anos, que sofre de artrite reumatoide, uma doença inflamatória crónica autoimune, que a acompanhará para o resto da vida e que, no seu caso, “evolui de forma galopante”, travando-lhe os movimentos.

Antes deste diagnóstico, já a D. Damiana padecia de suberose, uma doença pulmonar associada à exposição ao pó a cortiça, setor onde trabalhou durante 39 anos – escolhia e separava as rolhas por categorias. “Comecei a trabalhar na fábrica ainda andava na escola primária. No início, ganhava dez tostões por semana”, recorda.

Nas Termas de S. Jorge, esta lutadora incansável e bem-disposta, residente na freguesia de Lourosa, encontra um refúgio para cuidar da sua saúde e bem-estar, contrariando os efeitos de ambas as doenças com terapêuticas indicadas para as vias respiratórias e problemas músculo-esqueléticos. É assim há mais de dez anos!

“Não posso estar à espera que a doença tome conta de mim. Se eu parar, vou ficar acamada”, explica com uma serenidade desconcertante. Por isso, ocupa os seus dias com sucessivos tratamentos, sempre acompanhada pelo marido, Manuel António, de 72 anos, com quem partilha o seu sofrimento na intimidade do lar. “O meu marido é um santo, faz-me tudo. Se fosse outro, já me tinha botado ao mar”, confidencia com uma genuína gargalhada, seguida de um sorriso emotivo de pura gratidão.

Damiana Mota faz parte da ANDAR – Associação Nacional de Doentes com Artrite Reumatoide. Participa nos encontros nacionais e já partilhou várias vezes o seu testemunho com a comunidade científica e com outros doentes, porque é um caso raro de superação. Orgulha-se de ter integrado um ensaio clínico preliminar sobre o tratamento termal na artrite reumatoide, que evidenciou efeitos benéficos na redução da dor e na melhoria do movimento e da qualidade de vida.

A médica Isabel Santos sofre da mesma patologia. Conhece bem a história da D. Damiana, que acompanhou durante vários anos no Hospital S. Sebastião e nas Termas de S. Jorge, e não tem dúvidas quando afirma que “a água, em especial a água termal, pelas suas propriedades anti-inflamatórias únicas, é um modo complementar de tratar a doença e o doente”. E porquê? Porque “facilita os movimentos, reforça os músculos e permite conservar e/ou melhorar as capacidades funcionais”. Outro benefício apontado pela médica e investigadora de Santa Maria da Feira é “a redução da dor”, que considera “o ponto fulcral”, a par de um sentimento de relaxamento e bem-estar “com consequente melhoria da qualidade de vida do doente”.

Médica por vocação e humanismo, Isabel Santos explica que os doentes com artrite reumatoide – devido à desorganização das suas defesas – combatem e destroem o seu próprio corpo como se fosse um inimigo. Embora a doença continue sem cura, porque ainda se desconhece a verdadeira causa, há vários medicamentos para combatê-la, adormecê-la, inclusive suspender a sua agressão. Por vezes, é até possível recuperar alguns danos, com recurso a medicamentos e a terapias complementares não medicamentosas. Um trabalho de equipa em que o doente deve ser o centro e dedicar-se inteiramente a esta batalha.

Nas Termas de S. Jorge humanizam-se os cuidados e valorizam-se os afetos. Aqui há pessoas que cuidam de pessoas. Virgínia Silva não é apenas a professora de Educação Física que acompanha e orienta a D. Damiana nos exercícios diários na piscina termal. A cumplicidade entre ambas é notória quando as suas mãos se tocam e os seus olhares se cruzam e fixam, para que a motivação nunca esmoreça. O mesmo se passa nos restantes tratamentos, onde cada gesto conta, seja dos técnicos seja dos colegas termalistas. “Toda a gente me conhece e me trata muito bem. Fiz aqui amizades que vou guardar para sempre”, conta orgulhosa, recordando as “Lauras de Paços”, protagonistas da primeira história da rubrica “Termas com História(s)”.

É certo que vida desta lourosense dava um livro, tantas são as histórias que tem para contar e os desafios que enfrenta diariamente. Mas há uma frase da D. Damiana que merece ser aqui partilhada. Uma espécie de ensinamento que sintetiza o testemunho e a postura surpreendente de quem sofre de uma doença crónica, que lhe trouxe 90 por cento de incapacidade, e convive diariamente com a dor: “A Damiana está aqui para alegrar os que estão aborrecidos”. Está tudo dito.

 

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