Entrevista a Luís Vicente e Tânia Silva


O que nos inquieta quando falamos
Luís Vicente e Tânia Silva em conversa aberta


No dia 28 de fevereiro, o Cineteatro António Lamoso recebe Oleanna, de David Mamet, numa criação da ACTA – Companhia de Teatro do Algarve, com Luís Vicente e Tânia Silva em palco.

Nesta entrevista, os dois interpretes refletem sobre o texto, o processo criativo e as opções artísticas que sustentam esta encenação de Luís Vicente, assumidamente distante de uma leitura realista e mais próxima de uma abordagem simbólica.

Para Luís Vicente, ator cuja presença marcou várias gerações através da televisão, nomeadamente com o inesquecível Átila de Duarte e Companhia, Oleanna representa também um gesto de continuidade e risco artístico: a afirmação de um percurso profundamente ligado ao teatro contemporâneo, à experimentação e à recusa de fórmulas confortáveis. Ao seu lado, Tânia Silva, constrói uma personagem de grande complexidade emocional, onde vulnerabilidade, estratégia e inocência aparente se confundem num jogo que nunca se deixa fixar.

Mais do que contar uma história, Oleanna propõe um confronto. Um espetáculo que não se encerra no aplauso final, mas que se prolonga no pensamento e no debate, num diálogo vivo com o público. Exatamente aquilo que o teatro, hoje, pode e deve ser.

 

CM Feira: Em Oleanna, o público é confrontado com um diálogo intenso e desconfortável entre duas personagens. O que vos atraiu neste texto e neste embate em palco?

Luís Vicente: Este é um texto que nos atrai há muitos anos. Foi escrito em 1994 e que tem sido montado praticamente em todo o mundo. Aborda uma problemática que hoje está muito acentuada, não só na sociedade portuguesa, mas no mundo em geral. Foram-nos chegando notícias de várias encenações deste texto, quase todas num registo essencialmente realista, que é aquele para o qual o próprio texto, na sua origem, aponta.

Seduziu-nos a ideia de que as características do mundo em que hoje nos movemos são completamente diferentes das de 1994 e que, por isso, o texto faz hoje sentido, mas não necessariamente numa perspetiva realista. Antes numa perspetiva simbólica. A ação decorre num meio universitário, mas esta problemática é transversal a toda a sociedade. Cola-se também nos empregos, por exemplo.

Oleanna chama-se assim por referência a um grupo que foi viver para uma floresta na Pensilvânia, tentando afastar-se da civilização, mas a experiência correu muito mal e tiveram de ser retirados. David Mamet pega nesta narrativa de tipo realista, que acontece num gabinete e em três momentos distintos. No primeiro, a aluna vai falar com o professor para reclamar da nota que irá ter. No segundo, regressa ao gabinete para o acusar de assédio. No terceiro momento, já não fala apenas em nome próprio, mas em nome de um grupo. Esta é a narrativa.

Já vi este texto representado em outros países e, de um modo geral, a abordagem é sempre realista. Esse não é, seguramente, o nosso caminho. Em 2019, o encenador Ricardo Pais encenou este texto no Porto. Consultei vária literatura sobre o assunto e nunca encontrei uma abordagem como a que ele fez.

Em princípio, no texto existem duas personagens - o professor e a aluna -, mas há também um telefone que interfere frequentemente na narrativa e que funciona mais ou menos como um coro grego, fazendo avançar a ação. Nós resolvemos, tal como o Ricardo Pais – isto não foi uma ideia nossa, foi dele –, introduzir o telefone como uma terceira personagem. Achei esta ideia muito interessante, trocámos impressões sobre o assunto e resolvi avançar também com ela.

 

CMF: A relação em cena é marcada por proximidade, tensão e ambiguidade. Como se constrói essa intimidade durante o processo de criação e ensaios?

LV: Nós trabalhamos juntos há muitos anos e, portanto, há uma complexidade que temos de explorar, refletir e perceber como a adaptar às personagens que interpretamos.

Tânia Silva: Essa cumplicidade e esse conhecimento, enquanto pessoas e enquanto artistas, já existem há alguns anos. Agora trata-se de colocar isso ao serviço destas personagens e da relação que temos de mostrar em cena, usando essa bagagem.

LV: No fundo, o nosso conhecimento pessoal permite-nos perceber uma série de aspetos que nem sequer precisamos de verbalizar. Entendemo-nos; muitas coisas estão implícitas no nosso próprio relacionamento.

 

CMF: Num tempo em que as relações de poder, a linguagem e a perceção continuam a gerar debate, que ressonâncias contemporâneas encontram hoje em Oleanna?

LV: Essas situações têm estado a acontecer, não só em Portugal, mas também no resto do mundo. Têm vindo a lume várias notícias relacionadas com este tipo de problemática. É um texto oportuno. Quando David Mamet escreveu Oleanna, ele próprio encenou e realizou também um filme. A frase de apresentação do filme era: “Seja qual for a conclusão a que chegue, está errada”.

É um texto oportuno. Obriga-nos a refletir. Limpamos vários aspetos do texto, sobretudo referências muito esp0ecíficas da realidade americana, para o tornar mais objetivo e mais próximo das problemáticas com que hoje nos confrontamos, cá e no mundo.

 

CMF: Tânia, a sua personagem atravessa um percurso emocional complexo, onde vulnerabilidade e afirmação se confundem. Como foi o trabalho de construção desta figura e que desafios pessoais e artísticos se colocaram em cena?

TS: O processo ainda não está concluído, nem estará depois da estreia. É uma caraterística dos processos de criação. Existe, de facto, esse equilíbrio que temos de descobrir. O autor diz, e esse é também o nosso objetivo, que o público deve estar permanentemente na dúvida: quem tem razão? Quem ultrapassou o limite? Quem provocou?

Eu própria, quando comecei a ler o texto, tentei perceber quem era responsável pelo quê. Há um jogo de ambiguidade, mas também de vulnerabilidade, de ingenuidade, talvez de inocência, mas não só.

Somos seres complexos e não temos apenas uma faceta. Até que ponto não foi provocado por ela? Este jogo não está completamente definido, nem sequer por nós. Ainda estamos a explorá-lo.

Na personagem que interpreto, ainda estou a perceber quais são os momentos em que, para não ser demasiado obvio, ela parece não compreender o que se está a passar… ou se, pelo contrário, percebe tudo muito bem.

 

CMF: Em termos pessoais, qual foi o maior desafio neste trabalho?

TS: Este é um texto complicado para o trabalho de ator. É difícil, em termos práticos, de decorar, porque tem muitas repetições e os assuntos avançam e depois voltam atrás. Em termos técnicos, por vezes, é confuso.

LV: Há momentos do espetáculo em que eles falam os dois ao mesmo tempo. Estão constantemente a interromper-se um ao outro.

TS: Em termos técnicos isto é desafiante e não é fácil. Temos de estar muito concentrados e muito seguros do momento do espetáculo em que estamos, porque facilmente podemos passar uma deixa para o final do espetáculo. É um desafio ter este diálogo com o ator Luís Vicente. Ao mesmo tempo, é um prazer ter a oportunidade de trabalhar com ele. Costumo escolher as pessoas com quero trabalhar, quando o posso fazer, e quando estas pessoas são estas as pessoas com quem queremos trabalhar, é um prazer e um privilégio.

 

CMF: Luís, o seu percurso artístico tem atravessado diferentes linguagens – do teatro mais clássico a propostas contemporâneas e experimentais. De que forma esse caminho influencia a abordagem a este espetáculo?

Muito obrigada pela pergunta, porque realmente, nos últimos tempos, especificamente no teatro - não tanto no cinema nem na televisão -, tenho vindo a desenvolver um tipo de linguagem mais simbólica. As abordagens clássicas em que participei há anos já não me interessam. Houve uma mudança muito grande de paradigma no que diz respeito às linguagens. Proximamente, vamos ter cá um colega e amigo de há muitos anos que vem fazer, aqui no nosso teatro, um colóquio sobre linguagem de Inteligência Artificial aplicada à criação artística. Esta é a realidade do mundo de hoje.

No caso deste espetáculo, as notícias que tenho são de que, de um modo geral, é apresentado de forma realista. Passa-se num gabinete de um professor, com cadeiras, uma mesa, uma secretária. Não é esta a abordagem que eu entendo que hoje em dia deva ser feita. É uma opção pessoal, sem dúvida alguma.

Mais do que o aspeto simbólico, falo das questões de interpretação. Não é preciso dizer tudo. Às vezes, um silencio ou um olhar dizem mais que mil palavras. Quando trabalhamos neste registo, temos de preocupar-nos em passar isto para o publico, para que perceba e desenvolva também o seu pensamento e o seu raciocínio. É dar espaço ao público para pensar.

Em todo o trabalho que tenho feito nestes últimos tempos, tenho ido muito por aí. No nosso caso em concreto, a última produção que fizemos antes desta foi a partir do Sermão de Santo António aos Peixes. Chamamos-lhe Sermão de Santo António aos Peixes e aos Outros. É um texto muito fragmentado, que fui construindo à medida que Alexandre Honrado, nosso colaborador, me ia enviando os textos. Organizava-os em função de um boneco, de um anacronismo que comprei há uns anos em Barcelos. Aquele boneco ia-me ajudando, incentivando à organização dos textos, e disso resultou num espetáculo que tem corrido muito bem. Houve até um padre que nos disse que este é o verdadeiro sermão.

 

CMF: Ao longo da sua carreira, que lugar ocupam o risco e a exposição emocional do ator, especialmente num texto tão exigente e frontal como Oleanna?

LV: Eu não gosto muto de falar acerca dessas matérias, porque são complexas. Procuro reservá-las para mim e ir desenvolvendo esse trabalho internamente. É evidente que há colegas com quem me sinto mais à vontade para expor determinado tipo de ideias, pensamentos, coisas que nos afligem ou que nos alegram, mas é uma matéria que reservo muito para mim. Não aprecio muito falar sobre isso.

 

CMF: Santa Maria da Feira tem afirmado uma forte ligação às artes performativas e ao encontro entre culturas. Que significado tem apresentar Oleanna no Cine-Teatro António Lamoso, neste contexto cultural da cidade?

LV: Para nós é muito importante. Desde logo, o contacto não foi feito por nós, mas através do meu colega Rodrigo Francisco, da Companhia de Teatro de Almada, que nos colocou a questão e nós decidimos avançar num registo de coprodução. Agrademos muito. Já tinha agradecido ao Rodrigo e pedi-lhe que transmitisse os nossos agradecimentos. É um teatro onde nunca estivemos e espero que esta primeira vez resulte numa boa colaboração futura.

 

CMF: Que tipo de diálogo esperam estabelecer com o público nesta apresentação do dia 28 de fevereiro?

LV: Esta é uma questão muito interessante. Gostaríamos que, no final do espetáculo, acontecesse um debate sobre aquilo a que o público acabou de assistir.

 

CMF: O público do António Lamoso está sempre disponível!

LV: Isso é ótimo. Nós também estamos disponíveis para isso. Tem sido uma prática nossa desde há alguns anos. Nem sempre foi assim, mas ultimamente temo-nos empenhado nesse diálogo no final do espetáculo, debatendo o que foi apresentado.

 

CMF: Que perguntas ou inquietações gostariam que continuassem a ecoar no espectador?

LV: A frase que há pouco referi, de David Mamet – “Seja qual foi a conclusão a que chegue, está errada” –, dá para discutir amplamente. Às vezes, durante um ensaio, levantamos, nós próprios, algumas questões. Por exemplo, a primeira visita da aluna: até que ponto existe ali a inocência que ela parece demonstrar? O discurso altera-se completamente depois. No primeiro momento, ela aparece munida, pelo menos aparentemente, de uma grande inocência, e no segundo e no terceiro momentos tudo está alterado e organizado, ao ponto de ela conseguir levar o homem a um estado de absoluta aflição.

No segundo momento, ela aparece e diz-lhe que ele a assediou. Num terceiro momento, já falando em nome de um grupo, a situação já vai para tribunal porque ela a tentou violar. Aparentemente, nada disso aconteceu. Ela diz que ele a tentou violar porque, no segundo momento, estavam a conversar no gabinete, ele queria continuar a conversa e ela queria sair, e ele opôs-se à saída apenas com o corpo. Foi ela insistiu que queria sair.

TS:  É este jogo, mas depois há subtilezas nas palavras que se dizem. Quais são as intenções? Há sempre esta dúvida constante e isso, com certeza – não jogo na lotaria -, vai surgir também no público no final. Será, provavelmente, a primeira pergunta: afinal, quem é que tem razão? Quem é que fez o quê?

LV: Ainda há dias, estávamos a trabalhar no primeiro ato e a Tânia colocou a questão: ela não é assim tão inocente, há ali qualquer coisa por detrás.

TS: Ou pode haver, mas pode ser apenas um jogo de equívocos.

 

CMF: Suspense até ao último momento?

LV: Sim!

 

CMF: Luís, voltando ao que dizia das novas abordagens no teatro, tem noção de que a sua personagem no Duarte e Companhia é marcante para uma série de gerações? Já lhe aconteceu deparar-se com algum desânimo por parte do público que quer ver um Átila em vez de um ator de teatro contemporâneo?

LV: Sinceramente não sei bem como responder. Tenho passado por vários processos, tanto no teatro como em televisão, mas obviamente sou mais conhecido junto do grande publico, que é aquele que é atingido pela televisão. Curiosamente, há uns anos fui chamado para fazer uma novela e havia dúvida sobre qual seria o papel que eu devia interpretar. Havia dois atores para dois papéis; um era um cigano e o outro um padre. Os atores éramos o Ricardo Carriço e eu, e o Nicolau Breyner, que fazia a direção de atores, estava na dúvida sobre quem faria qual papel. A certa altura disse-lhe: “Não vale a pena pensares mais, porque eu quero fazer o padre. Quero, através dessa personagem, prestar homenagem aos meus amigos padres, porque eu fui estruturado por padres.” O Nicolau acabou por me entregar-me a personagem do padre e eu adorei fazê-la. Ninguém se lembra desta personagem.

 

CMF: Talvez porque Átila foi uma personagem muito marcante.

LV: Foi, sim.  O Átila e outra personagem, o diretor do colégio da Lua Vermelha, que também fiz e pela qual ainda hoje sou abordado, sobretudo por uma geração mais jovem.  

 

CMF: E a reação do publico quando o vê apresentar uma obra contemporânea, com uma linguagem eventualmente mais abstrata, tem sido boa?

LV: Sinceramente, não tenho razão de queixa. Há essa referência, sem dúvida alguma, mas eu procuro fazer o meu trabalho distanciado disso. Não faz sentido alimentar constantemente uma personagem que toda a gente considera marcante. Acredito que o seja. Isto foi numa numa altura em que havia apenas dois canais em Portugal e RTP vendeu a série para 11 países. A mim já me aconteceu ser identificado em londres por um inglês.

 

CMF: Imagino a sua surpresa…

LV: Completa.

 

Entrevista realizada a 4 de fevereiro de 2026