Entrevista a Joana Almeirante


Santa Maria da Feira no coração, o palco nos braços


Há palcos que são apenas palcos, e depois há aqueles que guardam os primeiros sonhos e medos. No regresso ao Cineteatro António Lamoso, com novo single, a feirense Joana Almeirante reencontra não só o público, mas também a versão mais sonhadora de si mesma: a jovem que ali cantou pela primeira vez sem músicas conhecidas, movida apenas pela urgência de partilhar o que escrevia no seu mundo.

Hoje regressa diferente: mais consciente, mais dona da sua voz, mais segura do caminho que escolheu.  Entre memórias, conquistas e uma nova fase criativa marcada pela afirmação e pela coragem de arriscar, este concerto é mais do que um espetáculo: é uma celebração íntima de crescimento, identidade e pertença. Uma noite em que o passado e o futuro se encontram no mesmo palco, e em que cantar “em casa” ganha um significado impossível de replicar em qualquer lugar.

 

CM Feira: O que significa para ti regressar a casa para atuar no Cineteatro António Lamoso?

Joana Almeirante: Tem um sabor muito especial. O meu primeiro concerto, antes de lançar a carreira e de ter um single cá fora, foi aqui. Voltar e, sobretudo, tocar na sala principal - que era um sonho - é muito marcante. Tocar na nossa terra tem sempre um significado diferente; para mim, é uma conquista muito importante.

 

CMF: Sentes que o público feirense te conhece de forma diferente por seres natural daqui?

JA: Acho que sim. Sinto muito carinho quando venho cá tocar. Não só aqui, mas também no Porto, que é perto. As pessoas acabam por demonstrar um afeto especial e, quando me veem atuar na minha terra, é ainda mais intenso. Abraçam-me de outra forma. É muito bonito.

 

CMF: Que memórias guardas da tua primeira experiência musical aqui, no António Lamoso?

JA: Lembro-me perfeitamente que não tinha nenhuma música conhecida. Vim cantar temas que tinha escrito há pouco tempo, tudo muito recente, e as pessoas acabaram por cantar as canções. Foi a primeira sensação de “uau, isto é mesmo incrível!”. Acho que foi aí que ganhei o bichinho da música e dos concertos ao vivo. Nessas primeiras experiências não sabemos bem com o que contar; hoje já temos uma ideia de como as coisas podem correr, mesmo que nunca a 100%. No início, tudo é surpreendente e exageradamente intenso. Comecei a tocar ao vivo com 18 ou 19 anos e tudo parecia gigantesco. Continua a ser maravilhoso, mas de uma forma diferente.

 

CMF: Os primeiros passos que deste na música moldaram a artista que és atualmente?

JA: Sobretudo nos últimos anos, tenho sentido que estamos sempre em mudança. Adoro os meus primeiros discos, mas há uma necessidade constante de inovar e procurar novos caminhos. Arriscar, experimentar, tirar o tapete, como estou a fazer neste novo trabalho, é essencial para crescermos e nos sentirmos realizados. Descobrir e redescobrir novas vertentes faz parte do processo. Do primeiro disco até agora, nota-se claramente uma evolução.

 

CMF: Há laivos desse tempo inicial ou a mudança é radical?

JA: Acho que é uma mudança radical. Quando comecei, nem sonhava ser artista; queria ser música, tocar para as pessoas. Só mais tarde, com as oportunidades a surgirem, comecei a pensar que talvez quisesse mesmo ser cantora. Nunca acordei a decidir isso de um dia para o outro; foi um processo gradual. Só nos últimos dois ou três anos é que pensei: “Uau, isto é mesmo fixe! Se calhar até quero ser artista, se calhar até quero pensar sobre isto… Tenho mesmo de desbravar caminho para chegar onde quero.”

 

CMF: O que te levou a essa certeza?

JA: Talvez o facto de ter estudado música e de, desde pequena, sonhar ser guitarrista. Durante muito tempo achei que esse era o meu propósito. Mais tarde percebi que as pessoas gostavam especialmente de me ouvir cantar - e isso, na altura, até me deixou chateadíssima (risos). Comecei então a ganhar o gosto por escrever canções, e isso tornou-se parte da minha vida. Esse lado foi-se desenvolvendo e encontrei uma nova vertente em mim. Há dois ou três anos tive a certeza de que era este o meu caminho.

 

 

CMF: Há alguma música que ganhe um significado especial por ser cantada “em casa”?

JA: Talvez “Por Meu Pé”, porque foi gravada em Santa Maria da Feira. Quando a lancei, recebi mensagens muito queridas. Tocá-la aqui é especial e estou curiosa com o feedback. Acho que será um dos pontos altos.

 

CMF: Sentiste que sair de Santa Maria da Feira foi essencial para crescer artisticamente?

JA: Nunca senti isso. Sempre encarei este como o meu centro, o lugar onde me sinto em paz e consigo criar. Claro que faz parte da logística ir a Lisboa ou ao Porto para divulgar o trabalho, e isso integra a minha rotina. Atualmente, viver fora dos grandes centros já não é um entrave, até pelas redes sociais. Adoro viver cá; estou a viver aqui com o meu namorado há meio ano e tem sido ótimo.

 

CMF: Quais são as principais influências que continuam a marcar a tua identidade musical?

JA: Mantêm-se muitas, sobretudo na música portuguesa: Miguel Araújo, Carolina Deslandes e Pedro Abrunhosa. Também tenho ouvido artistas mais recentes, como Nena, com quem partilho o palco, Bárbara Tinoco, Sabrina e Chappell Roan, que influenciam a minha forma de escrever. Sinto um “shiftzinho” de sonoridade e criatividade nessa onda e acho isso fixe.

 

CMF: Como descreves a evolução da tua sonoridade?

JA: Sempre estive muito ligada ao pop rock, que é a minha grande influência, mas na escrita tenho mudado: as canções tornaram-se mais irónicas, com humor e alguma crítica. “Por Meu Pé” já apontava nesse sentido. O álbum que estou a preparar e o single mais recente seguem essa linha, que reflete muito a minha identidade. Sou divertida no dia a dia e queria mostrar isso. Tenho-me divertido imenso em estúdio com este repertório. De facto, nunca tinha exposto este meu lado e tem sido incrível.

 

CMF: “Soamos Todas Iguais” marca uma nova fase na tua carreira?

JA: Sem dúvida.

 

CMF: Em que sentido?

JA: Queria mostrar este lado há algum tempo, mas foi preciso encontrar a forma certa. Durante muito tempo fui mais intérprete do que compositora. Admirava - e continuo a admirar - os autores com quem trabalhei, mas queria desenvolver a minha faceta de escrita. Só agora tive a coragem e a predisposição para o fazer. As canções começaram a surgir naturalmente e o caminho fez-se.

 

CMF: Que diferenças destacas neste álbum?

JA: Os anteriores eram mais introspetivos e centrados na temática do desgosto amoroso.

Este não se limita ao amor; aborda temas que nunca tinha explorado e sobre os quais sinto urgência em falar. Agora, estou a aproveitar o “flow e a abraçar essa ideia de falar de assuntos que são importantes para mim.

 

CMF: Já podemos falar sobre os temas centrais do novo álbum ou ainda é segredo?

JA: Ainda é segredo (sorrisos). “Soamos Todas Iguais” é uma canção muito divertida que fala sobre o que eu senti quando comecei na área artística, numa fase em que surgiram muitas artistas femininas e se dizia que “eram todas iguais; farinha do mesmo saco”. Sempre achei isso muito injusto. Na realidade, é só desconhecimento e achei importante falar sobre isso, porque era realmente uma coisa irritante. Cada pessoa é única, mas acabávamos colocadas na mesma caixa. A canção aborda essa crítica de forma leve e divertida, celebrando a individualidade. O disco vai falar sobre coisas desse género.

 

CMF: O álbum tem colaborações especiais?

JA: Ainda não pensei nisso, mas acho que vamos ter.

 

CMF: Como foi o processo de composição?

JA: Decidi dedicar-me a isto durante uns meses. Começámos a trabalhar no disco no início do ano passado e, inicialmente, seguia a linha habitual das canções de amor. No final de 2025 surgiram estes novos temas e percebemos que nos levavam para um rumo inesperado. Foi nos últimos três ou quatro meses que o disco ganhou esta nova direção. As outras canções também vão aparecer, mas de uma forma um pouco diferente.

 

CMF: Há alguma faixa do novo álbum que sintas que te representa de forma particularmente intensa nesta fase da tua vida?

JA: Este disco representa-me por completo. Estive envolvida em todo o processo, da escrita à produção. Nunca me senti tão presente num trabalho.

 

CMF: Que expectativas tens relativamente à receção deste novo trabalho, especialmente na tua terra?

JA: Aprendi a não criar expetativas. Às vezes agarramo-nos a determinadas canções, mas já percebi que tenho de ser mais imparcial. Vai simplesmente acontecer e eu vou ficar feliz e grata. Geralmente não sou a melhor a escolher singles. Deixo esse trabalho para o meu manager. A receção a esta canção foi mesmo muito fixe. Não estava à espera. Sinto que há um público e um nicho que está a criar-se com esta canção. De certa forma, é uma canção muito “girly”, de miúdas e de mulheres também. Aprendi a não criar expectativas. Na música nunca sabemos o que vai acontecer. Lanço as canções que mais gosto e que me representam; depois cabe ao público decidir.

 

CMF: Isso aplica-se também ao público de Santa Maria da Feira? O facto de haver muita gente de Santa Maria da Feira que te conhece pessoalmente pode influenciar a receção?

JA: Acho que sim, sem dúvida. Sentimos sempre o carinho dos que nos conhecem e com quem convivemos. É muito importante. Eu sempre senti isso desde muito nova. Sempre fui abraçada pelas pessoas que gostam de mim e que gostam da minha música.

 

CMF: Este concerto é uma celebração de um percurso ou do novo álbum?

JA: É, acima de tudo, uma conquista pessoal. Eu queria muito, há muito tempo, vir aqui tocar. É também uma celebração das novas músicas que queria apresentar aqui.

 

CMF: Há músicas inéditas no alinhamento do concerto?

JA: Há. Nunca as toquei ao vivo. Vão ser estreadas aqui.

 

CMF: CMF: A miúda discreta que tocava ao lado do Miguel Araújo ainda existe?

JA: Existe, porque faz parte de mim. Os concertos do Miguel continuam a ser um privilégio enorme. Na verdade, sou muito recatada e gosto de estar no meu mundo.

 

CMF: Qual a diferença entre tocar aqui ou no Meo Arena?

JA: Já toquei em muitas salas, em nome próprio e com o Miguel, e aprendi que não é a quantidade de pessoas ou o tamanho da sala que define o concerto. São as pessoas. Enquanto artistas temos conquistas pessoais, e quando assim é não interessa se estamos no Meo Arena ou aqui. O público é a essência de tudo.

 

CMF: Depois da apresentação no Cineteatro António Lamoso, que planos tens para levar este novo disco a outras salas do país?

JA: Na arte nunca sabemos exatamente o que vem a seguir, mas tenho muitas canções para lançar até outubro e novas datas para o verão. Vamos acompanhando o que acontecer.

 

CMF: Das próximas datas, qual te deixa mais ansiosa?

JA: Sinceramente, esta, aqui em Santa Maria da Feira. Não vivo a longo prazo. A minha família chateia-se muito comigo por causa disso, porque eu vivo semana a semana. Vou ao calendário, vejo o que tenho para fazer nessa semana e fico tranquila. Sei quais são as métricas e objetivos que tenho de cumprir e desligo. No domingo, volto a olhar para a semana seguinte. Eu nunca vivo a longo prazo. Poder ser bom, pode ser mau. Para mim, resulta, porque fico muito ansiosa se souber que em junho ou agosto vou tocar não sei onde. Vivo muito o dia a dia e, para mim, faz sentido que seja assim. Na música é exatamente a mesma coisa. Acabei de lançar este single e estou feliz. Vou tocar agora aqui, depois lanço outro single, e a minha vida vai-se gerindo dessa forma.

 

CMF: No panorama artístico português, com quem é que te falta pisar o palco?

JA: Isso é difícil! Já toquei com muitas das minhas maiores referencias. Quando os Quatro e Meia tocaram no meu concerto na casa da Música, foi um momento muito especial. Na verdade, já fiz “check” a quase todos. Acho que não me falta ninguém. Claro que, no fundo, vai sempre faltar. De repente aparece um artista incrível e eu vou querer muito tocar com ele.

 

CMF: Já fizeste “check” no Pedro Abrunhosa?

JA: Ainda não, é um facto (sorrisos). Está a faltar.

 

CMF: O que é que os feirenses podem esperar deste concerto?

JA: Acima de tudo, podem esperar um concerto muito divertido, com canções novas e convidados muitos especiais: a Nena e o Miguel Araújo, duas pessoas de quem eu gosto muito e que são artistas incríveis. Sobretudo, podem esperar um Joana muito feliz por tocar aqui. Essa será a essência do concerto.  

 

Entrevista realizada a 27 de fevereiro de 2026