Entrevista Capitão Fausto
Nos últimos anos, os Capitão Fausto tornaram-se um dos grupos musicais mais influentes da música portuguesa, conquistando um público fiel com o seu som único e letras introspetivas. Com uma discografia marcada por uma evolução constante, que vai do rock psicadélico ao pop mais sofisticado, Manuel Palha, Salvador Seabra, Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra têm sabido reinventar-se sem nunca perder a essência que os distingue.
Nesta entrevista falamos sobre o percurso da banda, os desafios da criação artística e os próximos passos deste grupo que ajudou a redefinir o panorama musical nacional.
Porquê o nome Capitão Fausto?
Manuel Palha: Como a história não tem grande interesse, durante muito tempo inventávamos histórias, mas agora não vamos fazer isso. Na altura éramos miúdos e precisávamos de um nome. Estávamos a começar a fazer concertos e surgiu este. Podia ter surgido outro, mas foi Capitão Fausto e acabou por fazer sentido.
Quais as maiores dificuldades que sentiram quando começaram?
Manuel Palha: Creio que foi uma dificuldade clássica. Juntamo-nos pela paixão pela música e porque éramos amigos. Éramos novos, a acabar de estudar, e não estávamos à espera de fazer, de imediato, uma grande carreira. A fase mais difícil foi quando começamos a perceber que talvez pudéssemos fazer da música vida, mas obviamente que era difícil continuar sem fazer dinheiro. Foi preciso fazer escolhas. Talvez tenha sido essa a parte mais difícil, mas acabou nos ser facilitada por ter corrido bem. De repente, estávamos a ter muitos concertos e a gostar do que estávamos a fazer. Percebemos que era possível viver só disso. Acabamos os nossos cursos e decidimos continuar.
Os novos estilos musicais que vão surgindo são uma ameaça?
Salvador Seabra: Não. Fomos muito beneficiados por estarmos atentos ao que estava a acontecer e por nos rodearmos de pessoas novas e talentosas e não apenas daqueles que estavam cá há mais tempo. Ter um qualquer ressabiamento em relação a isso não é saudável e é contraproducente. Gostamos de saber o que é que anda a aparecer.
Manuel Palha: Temos, inclusive, uma parte da nossa vida dedicada à descoberta de novos talentos, que é a Cuca Monga, a nossa editora. Sempre nos interessou ter amigos mais novos por perto e sempre gostamos de passar para os outros aquilo que tínhamos aprendido. Dá-nos gozo sentir que, desde que nós começamos, o panorama musical cresceu e adensou-se. Começamos numa altura ótima. Tínhamos algumas bandas que ouvíamos e com as quais nos surpreendíamos. Hoje, existe a possibilidade de ter uma carreira na música, existem sítios para tocar, pessoas para ouvir. A nós interessa-nos isso.
Quando, em 2011, lançaram “Gazela”, como é que se sentiram?
Salvador Seabra: Não me lembro muito bem, mas na altura víamos tudo com muito entusiasmo. Era a primeira vez de muita coisa. Éramos muito novos quando começamos a tocar, a ter uma banda, a descobrir e a ouvir músicas juntos. Obviamente que o nosso primeiro sonho era fazer umas gravações e gravar um disco. Era uma coisa que ambicionávamos desde miúdos e, portanto, foi muito entusiasmante dar os primeiros concertos e lançar o disco. Não sei bem como me senti na altura, mas tenho a certeza que foi com muito entusiasmo.
Manuel Palha: Pegando no que o Salvador disse, uma das graças em tudo é que na altura não pensamos muito. Foi uma coisa muito vivida. Começamos a tocar ao vivo covers e músicas nossas. Começaram a aparecer mais músicas nossas. Pensamos em fazer alguma coisa, surgiu a oportunidade e, de repente, gravamos um disco. Éramos novos, estávamos lançados e disponíveis para fazer que fosse preciso.
De que forma a vossa amizade marcou os Capitão Fausto ou, de outra maneira, foi a vossa amizade que ditou a existência da banda?
Manuel Palha: Sim. Éramos amigos e sentimos, nas nossas vivencias, que tínhamos em comum o gosto pela música. Por volta do sétimo ano, o Francisco, o Domingos e eu estávamos na mesma turma. O Salvador estava numa turma ao lado, mas conhecíamo-nos. Depois descobrimos que tocava bateria. Começamos, por diversão, a fazer uns ensaios na cave do pai do Domingos e acabamos por formar uma banda que não era os Capitão Fausto. O Tomás também tinha uma banda. Quando pensamos em fazer alguma coisa em conjunto, surgiram os Capitão Fausto. Sim, a banda é fruto da nossa amizade. Depois acabou por ter vida própria, mas sempre connosco, como amigos, no centro da coisa.
Como é que olham para a evolução da vossa banda e para a vossa própria evolução?
Salvador Seabra: As coisas mudaram bastante ao longo dos anos. Inicialmente fazíamos isto só porque gostávamos, por prazer, por sermos amigos uns dos outros e porque gostávamos de passar tempos juntos. Anos mais tarde, de repente, já era uma coisa mais séria. É de onde tiramos o nosso salário, é o nosso trabalho, por isso, temos de levar isto de outra forma. Felizmente, há uma qualquer magia que ainda não desapareceu, que é o nosso gosto e amor pela música. A amizade que temos uns pelos outros também. São coisas que ainda não desapareceram e, por isso, é que continuamos.
E em termos musicais?
Manuel Palha: É uma resposta muito complexa. A cada disco, tivemos preocupações diferentes e nem sempre todos a mesma. Somos cinco, agora quatro, mas sempre fizemos discos a cinco. A nossa música surge dessa manipulação a 10 mãos. Podemos tentar moldar o que entra, mas o que sai, só depois de ser destilado por nós. O primeiro disco nasceu dos sons que nos encantavam na altura; o segundo, foi como um rompimento. Queríamos um som mais nosso. A primeira vez que gravamos um disco fomos largados de paraquedas num estúdio. Tocamos aquilo que sabíamos tocar, mas sentimos que não tivemos controlo sobre o som. Na verdade, não tínhamos essa preocupação. Nem sabíamos que tínhamos de ter. Ninguém nos tirou o controlo, nós é que nem estávamos aí. O segundo disco é o oposto disso. Queríamos fazer um som mais carregado, mais denso. Hoje pensamos que, talvez, foi um pouco demais, mas fez parte do processo de aprendizagem. O terceiro… podia continuar por aí fora. Ou seja, há sempre uma evolução. Enquanto tivermos gosto pelo que fazemos, vai sempre haver qualquer coisa que nos faz mudar o que está para trás e ainda não sabemos muito bem como vai ser para a frente. Essa é a graça. Este último disco acabou por ser diferente de todos os outros. Não sabemos muito bem porquê.
O que há de novo no “Subida Infinita” relativamente aos outros?
Manuel Palha: É um disco que soa diferente de todos os outros, por várias razões. Primeiro, acho que é um disco mais eclético, na medida em que passa por mais tonalidades, não no sentido musical, mas um espetro de exploração diferente. Vamos mais à balada do que alguma vez fomos, mas também apresentamos coisas mais dançantes, como não fazíamos há muitos anos.
Destinado a um público mais heterógeno?
Manuel Palha: A parte do público é uma coisa que não controlamos e tentamos que não nos controle. Se calhar, neste disco não pensamos naquilo que devia ser. Capitão Fausto é, sobretudo, aquilo que nos dá gozo fazer e há músicas que são muito dispares. Claro que depois há uma cola, que somos nós a tocar, é o nosso som. A ideia de que podemos explorar muitas coisas e fazer diferente, continuando a sermos nós. Talvez seja isso o que representa este disco.
Consideram que a sonoridade que trouxeram ao panorama musical português contribuiu para uma mudança na música portuguesa?
Salvador Seabra: Conhecemos miúdos mais novos que dizem que foram influenciados por nós. Só isso é maravilhoso. Se mudamos alguma coisa, não sei.
Manuel Palha: Não conseguimos dizer com precisão. Já nos disseram que sentem que a nossa música influenciou uma parte de uma geração mais nova.
Têm noção de que o vosso estilo musical é diferente daquilo que existe?
Salvador Seabra: Sim, mas também nós fomos influenciados quando começamos a banda. Tínhamos muitas referências. Fomos buscar sonoridades a muitas bandas que já existiam.
Quais foram essas influências?
Salvador Seabra: Quando começamos a tocar, cantávamos em inglês, mas, de repente, quisemos fazer alguma coisa em português. Isso porque surgiram bandas, como Os Pontos Negros, os Peixe: Avião ou os 2008 que nos inspiravam muito. Foi numa altura em que em Lisboa estavam a aparecer muitas coisas boas e nós entramos nessa onda.
Manuel Palha: Havia, na altura, a ideia de que a música portuguesa não passava para o público. Quando começamos a tocar, a influência das bandas que o Salvador referiu e muitas mais deu-nos um grande âmbito e nós surfamos a onda. De repente, a coisa ficou mais efervescente e, se calhar, trouxemos um som que ainda não estava explorado. Esperemos que tenhamos feito alguma coisa muito interessante.
O vosso dia a dia serve-vos de inspiração?
Manuel Palha: Sim, sempre.
Algumas das vossas letras falam de temas muito específicos…
Salvador Seabra: Sim. É o Tomás que escreve e, normalmente, é sobre coisas pessoais.
Como costumam articular? Ele escreve e depois arranjam ou é ao contrário?
Manuel Palha: Os cinco geramos músicas instrumentais e, no fim, ou perto do fim, o Tomás começa a ter ideias e escreve uma letra, explorando o que se pode encaixar com a música. Às vezes uma ideia despoleta outras mudanças e começa a malear o que já havia. As letras do Tomás são muito sobre o que ele vive e o que nós vivemos. Como no fundo somos uma família e um grupo de trabalho que está junto há muitos anos, obviamente que a nossa vida está entrelaçada nas coisas todas. É sobre o crescer, as dores de crescimento, perder um elemento – aparece neste disco também – e o que é que isso significa e não significa.
Como foi ficar sem um elemento da banda?
Salvador Seabra: Foi uma coisa progressiva. Foi duro saber que o Francisco ia sair, mas fizemos tudo com muita amizade e tivemos tempo para digerir. Ele deixou de tocar connosco ao vivo, mas continuou a fazer o disco. Continuamos a estar com ele e a trabalhar com ele. É ele que faz toda a parte gráfica da banda e estamos regularmente juntos no estúdio, porque ele trabalha para a nossa editora. Foi triste no sentido em que ele trazia, musicalmente, muitas ideias à banda, e já não termos isso é penalizante para todos nós, mas novas coisas surgiram. Temos mais duas pessoas que andam connosco na estrada e que trouxeram conceitos diferentes e outra energia para a banda. Daqui em diante seremos só os quatro a compor. Vamos descobrir como será.
Manuel Palha: Quem dera que todas as separações fossem assim. Foi positiva na medida em que nós continuamos. O Francisco sempre quis que a banda continuasse. Ele procura uma vida que é a que quer e nós ficamos felizes com isso. Queremos que ele esteja bem e a fazer aquilo que o faz feliz. No fundo, foi uma coisa positiva. Continuamos amigos, juntos quase todos os dias, como o Salvador dizia.
Encaram sempre assim as coisas, sem dramas?
Manuel Palha: Sim. É um pragmatismo otimista. Felizmente, a nossa vida enquanto amigos deixou que isso acontecesse. Ninguém está zangado. O Francisco quer procurar uma coisa diferente, onde a música não seja o centro da sua vida. É designer e tem outros interesses. Percebemos isso. Vamos fazer o melhor para continuar e estar sempre próximos.
Pensam, alguma vez, comporem alguma coisa noutra língua?
Salvador Seabra: Para já, não. Só se for para uma ocasião especifica. Não tenho nada contra, mas neste momento não pensamos nisso. Faz mais sentido para nós cantar em português. É a língua que conhecemos melhor e com a qual conseguimos ser mais verdadeiros naquilo que queremos dizer.
A internacionalização está nos vossos planos?
Salvador Seabra: Sim, temos planos para o ano que vem. Ainda não posso dizer muito sobre isso porque são apenas planos. Mas sim, vamos tentar fazer uns concertos fora de Portugal e ver o que é que acontece.
Manuel Palha: Está-se a engendrar. Sabemos que há sítios onde temos de ir e queremos ir e temos pessoas para nos ouvir. Se não fizermos a tentativa de abrir essas portas nunca vamos saber.
Não é a primeira vez que atuam com orquestra. Há algum método específico para a escolha das músicas, tendo em conta que vão tocar com muitos instrumentistas?
Salvador Seabra: Pode ser que haja uma mudança ou outra, mas, neste caso, o processo de escolha de músicas já foi feito. Como não é o nosso primeiro concerto com orquestra, vamos tocar com os arranjos que foram feitos pelo maestro Martim Sousa Tavares. Se for preciso tocar uma que ainda não tenha arranjos, não é por aí.
Manuel Palha: A escolha foi feita tendo em conta as músicas que achávamos que podiam ser exploradas com outros sons e ganhar uma roupagem diferente.
O que é que os feirenses podem esperar deste concerto dos Capitão Fausto?
Manuel Palha: Podem esperar um concerto único, no sentido em que cada vez que entra um corpo novo a tocar, neste caso uma orquestra, há uma nova personalidade que surge. Vai ser a primeira vez que vamos tocar com este maestro e com esta orquestra e isso faz muita diferença. Há todo um trabalho que fazemos com a orquestra nos ensaios. Gera-se um contexto absolutamente novo. Há coisas que são decididas um dia antes, só porque aconteceu, porque é divertido. É muito eclético. Gostamos de explorar a orquestra. Não queremos que seja uma backing track, lá atrás, mas que que traga personalidade para as nossas músicas. É uma simbiose e, cada vez que acontece, é único. Vale a pena.