Entrevista a Capicua


Capicua: poesia, futuro e resistência num mundo em mudança


Na antecâmara do seu próximo concerto no Cineteatro António Lamoso, Capicua reflete sobre o seu mais recente disco, “Um gelado antes do fim do mundo”, e o papel da música como espaço de esperança, pensamento crítico e construção coletiva. Entre a urgência dos temas contemporâneos e a necessidade de resgatar o encantamento, a artista revela um trabalho profundamente ligado ao presente, mas com os olhos postos no futuro.

 

CMF: O título “Um gelado antes do fim do mundo” é simultaneamente leve e inquietante. Como nasceu esta ideia e o que simboliza para ti?

Capicua: Este é um disco sobre o nosso tempo, que aborda os grandes problemas e desafios que temos em mãos e esta sensação de apocalipse. Não pretende ser um disco catastrofista; pelo contrário, pretende cultivar a esperança, o olhar poético sobre o mundo. Acho que não é o desespero que nos mobiliza, mas sim a sensação de que ainda vale a pena lutar pelo mundo, e isso parte dessa noção de encantamento. Queria falar sobre esse momento de pausa no meio do caos - o tal gelado antes do fim do mundo - em que contemplamos o que está à nossa volta e percebemos que há muitas coisas belas pelas quais vale a pena mobilizarmo-nos. Este disco fala muito sobre a importância de olharmos para o futuro não como uma catástrofe ambiental ou uma distopia orwelliana, mas como uma possibilidade de criar utopias que permitam a defesa desse futuro.

 

CMF: Este disco surge num contexto global marcado por incerteza e transformação. De que forma isso influenciou a escrita e a construção deste trabalho?

Capicua: Influenciou muito. Este disco fala bastante sobre os desafios do nosso mundo. Tem várias canções que evidenciam essa relação da minha escrita com a atualidade: desde a primeira canção, “Chiaroscuro”, que fala sobre a nossa relação com as redes sociais, passando por “Apartamento”, que é uma canção ecologista, até aos vários momentos poéticos entre canções. Há imensas faixas que abordam temáticas centrais, os grandes e complexos problemas que temos em mãos. Portanto, o contexto global foi a grande fonte de inspiração para este disco e também a grande fonte de inquietação que me fez querer fazê-lo.

 

CMF: Falas da “sobrevivência da poesia num mundo em colapso”. Sentiste essa urgência criativa ao longo do processo?

Capicua: Sim, claro. Acho que estamos a passar por um processo de robotização em curso e sinto que é preciso resgatar a poesia, o olhar poético. Ao exercer o meu próprio olhar poético na construção deste disco, foi quase como renovar os votos com esse atalho para as emoções, que considero tão importante num momento em que estamos tão atomizados, pouco empáticos, com o debate tão polarizado e tão distantes uns dos outros. Senti esse apelo de resgate não só no meu trabalho, mas também como uma proposta para o mundo, para os outros.

 

CMF: Há também uma reflexão sobre a falta de futuro, de utopia e de esperança. Acreditas que a música pode ajudar a resgatar essas dimensões?

Capicua: Acredito que a cultura é um grande antídoto para esta desumanização porque, ao ir pelo atalho da emoção, obriga-nos a “calçar os sapatos do outro”, a imaginar o que seria viver outras vidas, a identificarmo-nos com situações diferentes da nossa, e isso aproxima-nos. Acho que isso é muito importante na construção de uma espécie de fraternidade que depois nos ajuda a criar novos futuros. Eu só acredito no futuro como algo que possa ser construído de forma comunitária e acho que as utopias são projetos comunitários. Esse lado de humanização que a cultura convoca é, de facto, estratégico.

 

CMF: Apesar do tom reflexivo, há uma forte presença de encantamento, seja na arte, seja na natureza. Foi uma intenção equilibrar estes dois lados?

Capicua: Foi, sem dúvida, uma intenção, porque eu não queria fazer um disco catastrofista. Acho que uma das dimensões importantes da arte é a busca pelo belo, no sentido filosófico. Isso esteve muito presente durante o processo de construção do disco que, sendo crítico e muito ancorado na realidade, com as “botas bem enterradas na lama” da atualidade, não queria, de forma nenhuma, ser um espelho desse desespero. Queria contribuir para esse encantamento. Precisava de equilibrar essas duas dimensões: a utopia, a poesia e o encantamento com a realidade.

 

CMF: Como foi o processo criativo deste disco? Houve diferenças em relação aos teus trabalhos anteriores?

Capicua: Foi um processo muito divertido e intuitivo. Tive a sorte de ter o Luís Montenegro como produtor musical: ele trabalha a dimensão eletrónica, com a qual estou mais habituada, mas também com instrumentos mais analógicos. Houve muita experimentação e isso permitiu libertar-me do ponto de vista criativo, explorar outros registos vocais e transitar entre a palavra dita, a palavra cantada e o rap de uma forma mais livre. Foi bastante diferente dos discos anteriores, que foram feitos numa lógica mais tradicional do hip-hop, enquanto este foi muito mais orgânico. Cada canção teve um caminho diferente de composição e foi, sem dúvida, surpreendente pela positiva.

 

CMF: Este espetáculo foi pensado como uma extensão do disco ou como uma experiência totalmente nova?

Capicua: É uma extensão do disco, mas também é diferente, porque mistura canções de discos anteriores. Tem uma componente visual muito interessante, feita pelo André Tentúgal, que criou vários vídeos para acompanhar as canções e que são projetados no palco. Há também a banda a tocar ao vivo. É uma experiência diferente, mas que, ao mesmo tempo, pretende representar o disco e convocar o seu espírito para o espaço do palco e da plateia.

 

CMF: O concerto cruza voz cantada, palavra dita e rap. Como trabalhas essa diversidade em palco?

Capicua: Trabalho misturando as canções deste disco com canções anteriores, sendo que as próprias canções já têm esses registos muito misturados, de forma fluida. É um concerto que tem espaço para momentos declamados, canções mais elétricas, dançáveis e contagiantes, ou seja, tem muitos registos diferentes. Isso representa o disco, essa “organicidade” que trabalhei nas mudanças de registo e que está bastante presente no alinhamento do concerto.

 

CMF: A componente visual, com projeções de vídeo de André Tentúgal, assume um papel importante. Que tipo de ambiente queres criar para o público?

Capicua: A ideia é que cada canção tenha uma dimensão visual que crie uma espécie de ambiente que acompanhe a música, acrescentando uma nova dimensão estética à experiência auditiva, o que resulta muito bem. O André fez um trabalho incrível: cada canção tem um ambiente diferente, um conjunto de cores, formas e movimentos de imagens que representam o universo iconográfico e o imaginário de cada tema. Isso está muito bem conseguido também no cruzamento com as luzes operadas pela Virgínia Esteves. É um espetáculo com múltiplas dimensões.

 

CMF: Estarás acompanhada por Luís Montenegro, Virtus, D-One, Inês Malheiro e Joana Raquel. Como foi construir este espetáculo em conjunto com estes músicos?

Capicua: Foi muito bom. Já trabalho com eles há algum tempo e foi muito divertido passar o disco para o palco. É sempre muito emocionante trabalhar com eles; sou uma abençoada nesse sentido. De facto, as vozes da Joana e da Inês trazem muito da dimensão dos convidados que estão no disco e não estão no concerto. Permitem acentuar essa “organicidade” entre os diferentes registos - o meu rap, a minha palavra dita - com uma dimensão musical mais melódica. Não poderia estar mais contente com a banda e com esse espírito colaborativo.

 

CMF: Que importância tem a colaboração artística no teu percurso e neste projeto em particular?
Capicua: Tem muita. Eu venho do hip-hop, que tem muito esse espírito colaborativo. Neste disco tive a grande sorte de contar com a Gisela João, companheira habitual de outras aventuras; os Sopa de Pedra, que são um coro de mulheres incrível; e o Toty Sa’med, que é a pessoa indicada para o refrão da canção “Ao Ocaso”. Eles trouxeram muito em termos de contributo para o disco, assim como os vários beatmakers, com os seus instrumentais e samples, e o próprio contributo do Luís Montenegro. É um disco muito coletivo, sendo muito pessoal ao mesmo tempo, e é assim que gosto de trabalhar.

 

CMF: O alinhamento do concerto percorre diferentes emoções e ritmos. Como pensaste essa narrativa ao vivo?

Capicua: Pensei que este alinhamento tinha de ter vários momentos, com emoções e intensidades diferentes: músicas que fazem dançar, que fazem pensar, que emocionam; poemas; momentos mais frenéticos. Ao vivo, é preciso convocar as pessoas para diferentes dimensões e criar dinâmica. O alinhamento é sempre pensado nessa lógica.

 

CMF: Podemos esperar também revisitar alguns dos teus temas mais marcantes? Como dialogam com este novo universo?

Capicua: Sim, sem dúvida. Por exemplo, “O Medo do Medo” integra-se muito bem no espírito de “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”. Há várias canções que dialogam entre si: por exemplo, “Souvenir”, deste disco, com “Circunvalação”, do disco anterior, ambas falam do direito à cidade, de formas completamente diferentes. Há muitos pontos de conexão que vou explorando no alinhamento.

 

CMF: As tuas músicas têm frequentemente uma dimensão interventiva. Sentes que esse lado continua a ser central neste trabalho?

Capicua: Acho que metade deste disco é sobre o mundo e a outra metade sobre as minhas emoções, portanto está bem equilibrado. De facto, é um disco que fala muito sobre o nosso tempo e há um espelho das minhas preocupações sociais e políticas nestas letras. Acho que essa lógica é transversal ao meu trabalho. Não só para o meu público habitual, mas também no meu trabalho para crianças, como o projeto “Mão Verde”, nas minhas crónicas e em tudo o que faço. Além da componente emocional e biográfica, há sempre também uma dimensão política e social muito evidente.

 

CMF: Que papel pode a palavra - dita, cantada ou rimada - ter hoje na transformação social?

Capicua: Acho que tem um papel de sensibilização e de mudança de mentalidades, de convocar as pessoas para uma maior proximidade e para o espírito comunitário. Seja na experiência de estarmos juntas numa plateia a ver um espetáculo, seja em casa a ouvir um disco e a sentir a emoção do outro, esse lado empático da experiência humana tem impacto. Tudo isso contribui para a transformação social. Pelo menos eu, que sou uma romântica e uma otimista, acredito que sim.

 

CMF: Apresentar este espetáculo no dia 25 de abril traz uma carga simbólica muito forte. Que significado tem para ti atuar nesta data?

Capicua: Tem todo o significado, porque o exercício do meu trabalho não seria possível se essa data não tivesse acontecido a 25 de abril de 1974. Não há nada mais simbólico do que exercer a minha liberdade enquanto mulher artista e celebrá-la no palco. É a minha forma favorita de assinalar o 25 de Abril e de o festejar. Estou muito feliz por ir atuar a Santa Maria da Feira nesse dia.

 

CMF: O Cineteatro António Lamoso será o palco deste concerto. O que mais valorizas na relação com o público em sala?

Capicua: O espetáculo, para acontecer, precisa dessa energia quase inexplicável que circula entre a plateia e o palco. Ou seja, depende muito daquilo que o público oferece e retribui, e a valorização dessa relação é total. É completamente diferente estar em frente a uma plateia que reage ao que é dito, tocado e apresentado. É o momento em que revivo a emoção que senti ao escrever a letra pela primeira vez, e isso é muito poderoso. É como se renovasse os votos para cada canção ao ver o público reagir: é algo muito bonito e quase mágico.

 

CMF: Num mundo cada vez mais acelerado, que espaço ainda existe para escutar, refletir e sentir um espetáculo como este?

Capicua: Quando as pessoas se disponibilizam para ir a uma sala de espetáculos, desligar o telemóvel e “fechar a porta” ao mundo lá fora, estão a oferecer algo precioso: o seu tempo. Mas estão também a permitir-se viver emoções e sentir essa experiência imersiva de estar em conjunto numa plateia. É algo muito bonito, muito romântico, sobretudo depois da pandemia, quando percebemos a importância dessa experiência. Num mundo como o nosso, temos de preservar esses momentos e valorizar a disponibilidade das pessoas para encher salas e assistir a música ou a qualquer tipo de espetáculo ao vivo.

 

CMF: O que esperas que o público leve consigo depois de assistir a este concerto?

Capicua: Espero que as pessoas saiam inspiradas, mobilizadas, com vontade de pensar no futuro como algo possível, com as baterias carregadas para a luta, porque os tempos são complexos e é preciso estarmos unidos e sensibilizados.

 

Entrevista realizada a 26 de março de 2026