Entrevista a Rui Horta
Rui Horta: “Estamos programados para o bem”
Há criadores que trabalham sobre formas artísticas específicas e há outros que parecem habitar naturalmente os lugares de fronteira, onde linguagens, disciplinas e pensamentos se cruzam. Rui Horta pertence claramente a esta segunda categoria. Coreógrafo, encenador e diretor artístico, construiu ao longo de mais de quatro décadas um percurso singular, marcado pela experimentação, pela multidisciplinaridade e por uma permanente curiosidade sobre o corpo, a tecnologia, a música e os modos como a arte pode refletir o tempo em que vivemos.
Em “Glimmer”, criação desenvolvida com os Micro Audio Waves, essa visão volta a tornar-se evidente. O espetáculo cruza concerto, instalação, performance e experiência visual para construir uma peça profundamente contemporânea, simultaneamente inquieta e luminosa, onde a ideia de esperança surge não como ingenuidade, mas como resistência.
Nesta conversa, Rui Horta fala sobre o impulso visceral da criação, a relação entre arte e futuro, o reencontro com os Micro Audio Waves e a necessidade de continuar a imaginar possibilidades, mesmo num mundo atravessado pela incerteza.
Câmara Municipal de Santa Maria da Feira: Antes de falarmos de “Glimmer”, gostava de começar por si. São mais de 40 anos dedicados à criação artística. O que o move ainda hoje a criar?
Rui Horta: Essa é uma boa pergunta. Acho que não tenho uma explicação. Gosto mesmo de estar no estúdio com os intérpretes e adoro pensar na criação. Portanto, de algum modo, nem sequer fui eu que escolhi a criação; foi a criação que me escolheu a mim. Tenho um ritmo de vida que tem algo a ver com o teatro, com a dança, com a ópera, com a leitura, com tudo o que é cultura. E, de algum modo, isso faz-me feliz. É algo um bocadinho difícil de explicar. Vem mesmo de dentro para fora. É muito pessoal.
CMF: Tem de criar de qualquer forma…
RH: Sim. A criação é uma espécie de grito interior. Nós olhamos para o mundo à nossa volta, imagino eu, e reciclamos o mundo através dessa forma de o ver, colocando depois um objeto artístico cá fora.
Só que, na verdade, o processo não é assim tão conceptual. É mesmo visceral. Quase psicoanalítico.
Sentimo-nos bem a fazer isto e gostamos de fazer isto. E não estamos propriamente a fazê-lo para o público. Estamos a fazê-lo para nós mesmos. É um bocado como se fosse… sei lá… criar ou morrer. É um bocado assim. Nós somos um bocado dramáticos no teatro a dizer estas coisas. Mas ficamos doentes, ficamos entupidos. Eu fico. Se não crio, fico completamente entupido.
CMF: Sente que a sua linguagem artística mudou com o tempo?
RH: Claro que mudou. Aos 30 anos, eu era um hiperativo que se exprimia através do corpo. Deixei para trás a arquitetura, outros cursos. Na verdade, queria dançar.
Com os anos, fui-me tornando naturalmente mais conceptual. Talvez mais firme nos meus propósitos. Isso vem com uma certa maturidade. E também mais multidisciplinar, porque ao longo da vida fui-me apaixonando por outras linguagens. Não só pela dança, mas muito pelo teatro, pela performance, pelo cinema, pela instalação, pela ópera.
Sou uma espécie de multidisciplinar por definição, até por causa destas últimas décadas de grande negociação entre diferentes artes. Sou uma espécie de mediador. Estive sempre presente nessas negociações. Gosto disso, sou um tipo curioso.
E, mais uma vez, por exemplo, com os Micro Audio Waves… isto é uma banda pop-rock, uma banda eletrónica muito interessante. E é, outra vez, a curiosidade que me move.
CMF: Em relação a “Glimmer”, como descreveria o espetáculo a quem ainda não sabe ao que vai?
RH: “Glimmer” é um acontecimento. Tenho de dizer que não tem nada a ver com o espetáculo de música que habitualmente vemos num palco. É um espetáculo muito cuidado.
Tem guião, tem pensamento. Algumas das letras foram até partilhadas comigo e com a equipa. É um espetáculo muito sólido do ponto de vista conceptual. Mas depois é também um espetáculo de música muito comunicador. Ou seja, é um espetáculo que não nos deixa presos à cadeira. Dá vontade de dançar, de mexer.
É um espetáculo com um grande otimismo. Mesmo neste mundo em que vivemos, debaixo de nuvens negras constantes, sempre suspenso. Até temos medo de ouvir a rádio de manhã, porque não sabemos o que aí vem.
Então, neste mundo suspenso, nós achamos que há uma centelha, um glimmer, uma coisa resplandecente e dourada que nos vai levar a algum lado. Porque nós damos a volta a isto.
A peça tem muito este otimismo, mas é construída como uma peça dramática. Tem um momento de introdução de vários temas, alguns ecológicos, outros pessoais. Depois há uma espécie de grande descida aos infernos, em que parece que está tudo bloqueado. É aquela altura em que o herói está com as mãos atadas atrás da cadeira e com duas pistolas apontadas à cabeça. E, de repente, como nas histórias da infância, abre-se uma janela. Eis senão quando, entra qualquer coisa e acontece algo. E este “eis senão quando” está presente nas nossas vidas, não só na infância, mas pela vida fora. Porque acontecem coisas horríveis ao longo da vida e nós levantamo-nos sempre. Temos uma espécie de força superior que nos faz avançar. Somos uns sempre em pé. Seja nas relações, seja no trabalho. Às vezes são países inteiros que se afundam numa guerra e, anos mais tarde, tornam-se países exemplares, que nos ensinam.
No fundo, acho que estamos programados para o bem. Apesar de às vezes parecer o contrário. Se não estivéssemos, não continuávamos a ter filhos, por exemplo. Eu tenho três. Caso contrário, dizíamos: “o melhor é parar já, acabamos com isto”.
CMF: Já tinha trabalhado com os Micro Audio Waves há mais de uma década. Como foi reencontrar essa colaboração?
RH: Foi reencontrar toda a gente mais velha. Eles são históricos, todos. Basta pensar no Flak para percebermos isso. São parte da história da música contemporânea em Portugal. A própria Cláudia F., que é incrível e uma figura central da banda.
A banda é muito rica. Tem um elemento agregador muito forte, que é o Francisco, muito técnico e tecnológico. E depois o Carlos Morgado, o C-Mor, que é uma espécie de lenda viva da música eletrónica, um autodidata.
Quando reencontramos uma banda destas 15 anos depois, muita coisa aconteceu na vida deles também. Não estiveram a olhar para a Lua, embora olhar para a lua seja uma coisa boa. Encontrámo-nos num lugar diferente. Claro que mais velhos, mas também muito mais conscientes do que estamos a fazer. E muito divertidos, porque há uma coisa que não muda neste mundo: os nossos traços de personalidade. Basta ir a um almoço de turma 20 ou 30 anos depois. São todos iguais. O que era rato de biblioteca é agora diretor da Biblioteca Nacional. O malandro continua a contar as anedotas mais parvas. Nós mudamos menos do que pensamos.
E uma coisa que a pop e o pop-rock têm é isso: estas pessoas são muito vivas, muito divertidas, muito para a frente. Não estão constantemente a lamentar-se. Acho que é isso que esta banda tem. É uma banda que quer viver cada dia. Muito selvagem, muito felina. E isso é fantástico. Os anos passam, mas essa energia continua lá.
CMF: E como é que surgiu este encontro? Ou seja, como é que decidiram criar este espetáculo?
RH: O primeiro espetáculo tinha sido um enorme sucesso. Eu estava num momento muito especial da minha carreira, porque sempre fui uma pessoa muito ligada à tecnologia, faz parte da minha curiosidade. Fizemos, na altura, um espetáculo tecnologicamente muito avançado para o seu tempo, ali por 2008, 2009, 2010. Era quase impossível de fazer. Mas foi fantástico e desafiou-nos muito.
Este reencontro acontece porque a Cláudia F. me telefona. Foi ela quem tomou a iniciativa. E eu ainda demorei umas semanas a decidir se avançava ou não. Porque isto entra na tua vida de forma total. É um ano inteiro dedicado à criação e depois mais 20 ou 30 espetáculos em digressão. É um projeto que toma conta da tua vida. Mas a Cláudia é muito convincente e é uma artista completa, incrível. E só vale a pena fazer coisas, sobretudo a partir de certa altura da vida, se aprendermos tanto quanto ensinamos.
Se não houver capacidade de nos deslumbrarmos com aquilo que estamos a fazer, a vida torna-se uma chatice. Talvez seja por isso que continuo a gostar tanto da criação e de partilhar a criação: porque estou constantemente a aprender.
CMF: A música, a tecnologia, a dança, a luz, tudo parece fundir-se. Como se orquestra esse “todo”?
RH: É preciso estar treinado para isso. Ao longo dos anos fui-me treinando. Há coisas que não sei fazer. Se me perguntarem se sei coser um botão de uma camisa, provavelmente pico-me todo. Mas há outras para as quais estou preparado. E uma delas é juntar linguagens improváveis e pô-las todas a correr no mesmo sentido.
É como ter vários cavalos selvagens, todos extraordinários por si só, mas conseguir que corram juntos. Ou aqueles cães de trenó, os huskies, todos alinhados numa direção. Isso é difícil. Para isso é preciso uma grande escuta, porque não se trata de fazer apenas aquilo que eu quero. Trata-se de fazer aquilo que todos queremos. E isso exige uma escuta ativa enorme.
Grande parte do tempo passa-se em residência artística: a conversar, a beber copos, a ouvir os sonhos uns dos outros, eles a tocarem para mim, eu a partilhar ideias. Parece que não está nada a acontecer, mas está.
Depois, quando chega o momento de tomar decisões, apesar de haver muita improvisação nos processos criativos, aquilo transforma-se num relógio suíço. E aí, claro, sou eu que tenho a batuta. Porque quando o pano sobe, não pode falhar. As pessoas têm uma expectativa. Não se coloca sequer a hipótese de falhar.
CMF: “Glimmer” sugere futuro, esperança, luz. Mas também se sente no espetáculo alguma inquietação. Que mensagens quis transmitir?
RH: A inquietação é uma coisa boa. É fantástica. Significa que não há complacência. Não estamos acomodados à vida. Somos inquietos.
Mas há também uma ideia de futuro. E nós não conhecemos o futuro. O futuro é extraordinário justamente porque só o conseguimos imaginar, nunca saber.
Hoje somos uma sociedade globalmente inquieta, até perante futuros distópicos. Claro que essa inquietação nos obriga a refletir. O que ela faz é levar-nos a pensar, analisar e, no fim, decidir o que for possível.
Esta peça nasce muito de um olhar sobre o mundo dos últimos anos. Já foi criada depois da guerra na Ucrânia. Apanhou o 7 de outubro. É uma peça que atravessou muitos dos grandes solavancos da humanidade nestes dois últimos anos. E, perante isso, criar uma peça luminosa exige crença. É preciso acreditar mesmo. A beleza de “Glimmer” está aí. As pessoas saem sem conseguirem definir exatamente o que viram. Se era dança, teatro, instalação…. Há muito vídeo, muita tecnologia em tempo real, muito material visualmente forte.
Mas saem com uma sensação muito clara: “isto foi bom”. “Isto vai inspirar-me para amanhã ser um dia melhor.” E é também isso que nós queremos.
CMF: Há uma presença muito forte do corpo no espetáculo. Como foi o trabalho com a intérprete Gaya de Medeiros?
RH: A Cláudia, sendo vocalista, já tem uma grande capacidade de trabalhar com o corpo. Mas senti necessidade de trazer um joker, um elemento que indisciplinasse a peça. E trouxe a Gaya, que é uma bailarina extraordinária e uma coreógrafa em plena ascensão. A Gaya e a Cláudia formaram uma dupla muito forte.
O corpo está muito presente, mas tem como pano de fundo uma enorme componente tecnológica. Não é um corpo com um fundo natural; é um corpo inserido num ambiente digital. É como ver uma bola preta sobre um fundo branco. O corpo destaca-se em contraponto com o contexto. Isso torna-se muito interessante.
O corpo é parte integrante da peça, constantemente. Aliás, como diz o José Gil, o corpo é a única coisa que temos.
CMF: Para quem talvez não esteja habituado a espetáculos experimentais, tem alguma sugestão?
RH: O que posso dizer é: venham ver o espetáculo, porque vai surpreender.
Antes de mais, não é nada aborrecido. É um espetáculo experimental ligado à corrente elétrica a 220 volts. Mas é também um espetáculo do sensível. Questiona-nos, interpela-nos.
Diria às pessoas para virem ver um grande espetáculo de música, com uma excelente banda, momentos musicais excecionais, muito estimulante visualmente. A experimentação está ao serviço de comunicar algo que é maior do que nós próprios.
No fundo, o que estamos a tentar dizer é: embora viver a vida. Porque estes sistemas são tão complexos que, no fim de contas, ainda vai continuar a existir gente boa. Isto não vai correr mal para sempre.
Acho que é com essa abertura que as pessoas devem ir ao teatro. Quando alguém entra num teatro, assina uma espécie de contrato de boa-fé com o espetáculo. Se uma pessoa vai ver um espetáculo mais convencional, já sabe mais ou menos o que esperar. Mas quando vai ver um espetáculo experimental, assina um contrato de boa-fé. Um contrato com o encenador e com o gestor do palco.
É um pouco como quando íamos ao circo em miúdos: “isto vai ser incrível”. É essa predisposição que importa manter. E acho que vai valer a pena.
CMF: Para terminar: olhando para a sua carreira - do Ballet Gulbenkian à O Espaço do Tempo, de Lisboa à Alemanha - o que sente que ainda falta fazer?
Ui, tanta coisa! Eu nem gosto muito da palavra “carreira”. Parece uma coisa militar.
CMF: O seu percurso, então. A sua vida…
RH: A minha vida, sim. Quando olho para trás, penso: que canseira, que loucura. Acho que fui uma pessoa muito hiperativa. Não fiquei à espera que a vida me vivesse. Vivi-a eu. Eu comi a vida.
E o que me falta? Neste momento estou a fazer coisas que me dão muito prazer. Estou a fazer a curadoria de conferências para a Rede Azul, uma rede de teatros no Algarve. Todos os fins de semana vou para uma cidade diferente. Dá-me muito gosto.
Estou também a organizar um grande ciclo de conferências no São Luiz para o próximo ano, durante três meses, todos os sábados. Uma reflexão sobre o país e sobre o estado das coisas.
Estou a preparar uma ópera, uma nova criação muito complexa — comigo é sempre tudo muito complexo — com a Patrícia Portela, que adoro e que lançou agora um livro magnífico.
E, ao mesmo tempo, tenho mais tempo do que tinha antes. Viajo muito mais, leio imenso. Sou capaz de passar uma semana num sítio isolado com o meu cão, só a ler. Antes isso era impossível.
Mas ainda tenho imensa coisa para fazer. Acho que isto é para gastar até ao fim. Espremer até ao fim.
CMF: Ou seja, não deixar nada por fazer.
RH: Nada. E tentar fazer tudo bem feito também. Quando começar a fazer mal feito, espero que os meus amigos me amarrem a uma cadeira e me digam: “não te mexas mais para não estragares a memória daquilo que fizeste”.
Porque todos temos um prazo de validade. Somos como os iogurtes. Há uma altura em que já não prestam.
Entrevista realizada a 20 de maio de 2026